O tortuoso tempo no conto SEU MANOEL DO RIACHÃO de Manoel
Onofre Jr.
Aguinaldo do Nascimento Silva
RESUMO: esse pequeno ensaio tem por premissa
analisar o conto Seu Manoel do Riachão,
presente no livro Chão dos simples do
escritor norte-riograndense Manoel Onofre Jr. a partir das relações e conceitos
do regionalismo apontados por Ligia Chiappini, das observações sobre o narrador
feitas por Walter Benjamin.
Palavras-chave: tempo, memória, regionalismo
O regionalismo passa
pela vertente do que não se pode dizer que seja uma linha entre o moderno e o
antigo. Em se tratando de literatura, os mesmos valores que se pode atribuir ao
legado do passado, pode sim ser expoente do presente. No que se refere à
estética e ao modo de expressão vinculados às análises sempre atenuantes de que
esse tipo de texto se move a partir de acontecimentos locais e que assim se
considera uma parcela da escrita como reprodução do regional em si mesmo, as
crendices, os costumes, superstições ou modismos de um determinado lugar vão se
inserindo em razões que passam do particular para o universal.
Desde o romantismo,
que buscava a identidade do nosso povo através de valores regionais e da
descoberta de setores com seus costumes e modas, o regionalismo na literatura
percorre momentos de maior e menor aceitação. Pensando a literatura como
universo da palavra, o dizer e a procura de dizer o que se trata de um outro
lado: o lado do “fora”. Extensão aceita como proposta em si mesma, os valores e
formas que compõem a escrita são, assim, o inesgotável percurso de ideologias
em forma da palavra. Aceitando essa literatura como condição do homem de estar
no mundo, a escrita regional perfaz o caminho dos grandes escritos e permanece
viva entre tantos saberes que devem ser evidenciados. A relação entre o romance
e contos urbanos e o dito “regional” se confunde uma vez que os elementos
diferenciados na verdade se buscam numa dicotomia irreal que faz prevalecer as
intenções do sistema que promove o erudito, clássico, aceito como modelo, do
ocasional, tradicionalista, tido como momento.
Nos estudos sobre o
regional, Ligia Chiappini aponta-o em destaque como “qualquer livro que,
intencionalmente ou não, traduza peculiaridades locais”. Essas peculiaridades
servem de base para proposições acerca da literatura regional e formam os
critérios do que se deve observar e analisar. Entretanto, do que se servem as
estórias no tocante ao regional? Elas percorrem cantos e vozes que elucidam
momentos das histórias, elegias de um povo, memórias e sentimentos que se podem
dizer universais. Ainda citando Ligia Chiappini, os romances e contos
regionalistas, são estórias “constitutivas...entre nação e região, oralidade e
letra, campo e cidade..”. Sendo assim, vale pensar esse modelo como instrumento
que verbaliza mitologias e condições que se perpetuam em locais que dizem a
história de um determinado povo.
Partindo desse ponto
de vista, de que o regional traduz as alegrias, sentimentos e tradições de um povo,
iniciamos análise do conto “Seu Manoel do riachão”, do escritor
norte-rio-grandense Manoel Onofre Jr. Tido como um dos grandes expoentes do
conto regional no Rio Grande do Norte, Manoel Onofre Jr. escreve em “Chão dos
simples” uma coletânea de contos, lendas e fábulas que versam sobre a vida no
interior, personagens pitorescos, tradições e lembranças. A memória pode ser
tida como elemento principal na formação das estórias e nela reside a linha
condutora dos traços que formam a cultura e sobrevivência de um setor social
rico em história e presente na formação dos valores do presente. Os momentos elucidados pelas estórias são em
si as relações primeiras da construção da base que forma o povo do interior do
Estado, mais especificamente de Martins, cidade natal do escritor. Nesse mundo
verbalizado dos fazeres e saberes de um povo, Manoel Onofre Jr. recorre ao
causal e as conotações do espaço e do tempo, sendo esse último o verdadeiro
viés do que se pode considerar as formas de relação com o mundo e com os
outros. De acordo com Blanchot em “O livro do por vir”, “A palavra literária
carrega em si um porvir, um ainda não, marca de sua impossibilidade”. Dessa
forma, ainda que de modo notoriamente simples, a palavra nos contos do escritor
traz as marcas de um tempo fora do plano do cronológico, possibilitando as
demandas do passado e as análises do presente, das transformações, dos valores,
das heranças culturais e memoriais. Ainda segundo Blanchot:
O tempo da escrita é um tempo em que nada começa, em que
nada se torna presente, em que nada tem uma primeira vez.
As
relações dos escritos com o tempo perfaz um jogo com a memória, escolhendo os
itens corretos para que possam dizer e redizer os elementos necessários às
transformações da história e da permanência de momentos, o que por si reinicia
o diálogo entre a literatura e o mundo. As notadas circunstâncias que formam a
escrita literária são, sim, as formas de vivenciar os pontos de encontro entre
o mundo concreto e o mundo da literatura, esse universo verbalizante do fora,
que conserva em si o desdobramento do signo e condiz com o revigoramento dos
seres e das coisas. Assim Anne-Lise Nordholt, em seu livro sobre Blanchot diz:
O mundo não desaparece na escrita, mas se desdobra no
outro de todos os mundos.[...] a escrita nos fala dos seres e das coisas, mas na
medida em que eles estão desdobrados em seu reflexo. Ela fala do mundo
invertido: o mesmo mundo, mas com outro signo. (A experiência do fora, Tatiana
Salem, página 26).
Os
mundos se desdobram e se perturbam para que tenhamos os reflexos do porvir, do
vir a ser que se faz nas realidades ainda em transição. Os momentos silenciados
muitas vezes pelas transformações do homem e do seu modus vivendi se traduzem nessa possibilidade do retorno em
escrita, desse universo literário do fora.O regionalismo de Manoel Onofre Jr.
traz essa perspectiva de que tantos fatores contribuíram para que
transformações se iniciasse no sertão nordestino, porém tantos valores se
perscrutam nas ações e atitudes destes que vivem naquele lugar. O espaço da
memória está para todos os lugares, em todas as cantigas e em todas as
convicções mitológicas católicas que perfazem os temores e as mudanças
esperadas, bem vindas e até atenuadas com o porvir, o que virá na forma do Deus dará. O homem em seu trânsito por
si mesmo, revendo a perpetuação dos atos morais e até amorais que fizeram de
uma época retrato dessa. O homem humano e voltado para o outro como
verossimilhança de momentos e tormentos que tornam senhores e legados capazes
de reproduzir um sistema tortuoso e triste. Um homem pobre de uma geografia
construída nas formas do colonialismo e capitalismo. Dessa maneira, Ligia
Chiappini nos diz:
O regionalismo lido como uma tendência mutável onde se
enquadram aqueles escritores e obras que se esforçam por fazer falar o homem
pobre das áreas rurais, expressando uma região para além da geografia.. (Do
beco ao belo: dez teses sobre o regionalismo na literatura, página 157).
No
conto estudado, tudo começa com a espera e a memória de porvir: o tempo
tortuoso em que se dá a lembrança e a esperança. Seu Manoel do riachão espera.
Mas não espera a toa, uma vez que está resguardado por um elemento mais do que
certo. É dia de São José. Sertão seco.
Esse tempo é, sem dúvida, de esperança. A esperança considerada por todos da
região como promessa cristã de dias melhores. O sertão está seco, a fala está
seca, a memória não. Seu Manoel espera no alpendre como um rito que se repete a
cada ano e que será um porvir de tudo o que pode ser melhor para si e para os
seus. Naquele lugar em que espera, as lembranças são eternas e retornam sempre
para que se façam otimistas e detentoras de valores que nunca se acabarão. Mas o céu era poucas nuvens passeando sob o
azul. Era o diabo. Nesse momento, há uma dissolução do que se entende como
esperança e se transforma em desconfiança. Porque se não viesse assim esperada
a chuva, tudo se transformaria em lamentação e início de um novo ciclo. O
retorno do porvir que se torna fatigante todos os anos e que faz com que o
homem do campo de desdobre em trabalho e espera. Melhor nem pensar naquilo. O texto retrata o sem sentir da visão do
homem sobre si mesmo e da responsabilidade que tem para com os outros e para com
a sua região: o gado ia morrer, o povo do
Riachão ia virar retirante.
E
começa um ritual da espera em que tudo pode se considerar. Seu Manoel
levanta-se, vai ao armazém, pica fumo, toma café, pita o fumo, mas a ideia de
que a seca assolaria seu Riachão não lhe sai da cabeça. Ele percorre os
elementos constitutivos dos valores sertanejos, um homem que ainda guarda as
memórias do lugar. Na sua rotina, não deixa de prestar atenção ao que acontece
nos momentos cotidianos, daqueles que fazem seu dia. O narrador conta como um
lapso de sussurro o que se faz naquele lugar, naquele momento. Ele revela aos
poucos as relações entre seu Manoel e o Nego
preto que veio do terreiro em busca de agrado. Nisso, fica claro o encontro
do antigo, das situações coloniais e das buscas de memórias coletivas que se
fazem como cantiga das antigas senzalas, transformada em relações de bom grado
e de fartura, ora comemoradas, ora desconsideradas. Ainda lhes restam os
temores dos seus, num tratamento evidentemente casual e repetitivo do que
seriam as relações senhor-menino-escravo.
Mas eis que no
alpendre novamente, volta a esperança de que choverá naquele dia. A narração
vai ser tornando tinta, jogando cores ao redor de tudo. E já era quase quatro
da tarde...pois a sombra do alpendre
chegava ao extremo do terreiro. Sobremaneira, as considerações do
conhecimento do homem comum, do homem do campo é apontado como forma de vida e
de experiência. A experiência de quem conta, de quem percorreu estradas e viveu
histórias. O senso prático é uma das
características de muitos narradores natos.(Walter Benjamin, o narrador,
magia e técnica, arte e política, página 216). Mas a voz do dia, da rotina lhe
chama a atenção quando da latada de trás
vinha a cantiga da cozinheira. E assim, seu Manoel se retrai a ouvir o que
seria o chamado para os afazeres do cotidiano, daquilo que pratica a cada dia e
que o faz pensar em como manter tudo do jeito que está. E essa cantiga retrata
a esperança de que tudo continuará e que as coisas se ajustarão. O desejo de
que tudo se faça como um retorno e se transfigure em condição de vida. Mesmo
percebendo tudo o que estava ao seu redor, seu Manoel não deixava de pensar e
calcular essa chuva que não vem. Mas ela não vem como muitos anos e muitos
meses, desses que deixam o homem do campo pensativo e triste, vertendo
crendices para que tudo esteja como o desejado. A narrativa caminha a passos de
vitória do que pode ser que chova, as ladainhas de bem aventuranças cantadas
nos casarões que se transformam em retorno para todos os que creem. A escrita é
maneira boa do contar do povo a tradução das tradições orais. Nessas estórias,
cabem as lamentações e os acertos, as descobertas e pontuais encontros do que
pode ser verdadeiro, saudosista e memorial. Ainda citando Walter Benjamin:
...entre as narrativas escritas, as melhores são as que
menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores
anônimos. (id, página 214).
Parecia tudo a favor.
Seu Manoel alegra-se com a possibilidade da chuva, em um tempo necessário a sua
vinda. Ele permanece inalterado com relação a sua rotina e percorre todos os
sinais de que tudo está como todos os dias no Riachão. As trovoadas chegam como
sinal de que este será um ano diferente. Eita,
pai da coalhada. Pudera comemorar. A chegada dos anúncios de que seria mais
do que certo o tempo a seu favor. As memórias se retratam como sinais de uma
determinada região, as crendices e lembranças que se renovam a cada ano. Dessa
forma, busca-se a perpetuação do tempo movido as estórias contadas em cantigas
e cordéis, dos sonhos rompidos com os lamentos, entretanto do valor conquistado
da esperança. Seu Manoel janta com a família reunida, e certo de que haverá
chuva, mandou partir o queijo de manteiga
que havia ganhado de presente no mês passado. Um ícone da região, um sabor
de memória, dos trabalhos com o gado, dos mercados que transitam pelo sertão, o
queijo manteiga, sabor de um lugar e de uma história, para momentos especiais,
guardado desde mês passado para compensar a espera do momento tão desejado. E a
chuva vinha zoando perto. Ele sabia que ia acontecer e tentava não deixar
perceber que isso era certo. Os sinais já anunciavam isso: alvoroço dos animais
no terreiro, o boi escramuçando, o serrote da frente branquejou. E eis que como
que repentinamente a chuva deu meia-volta
e seguiu direção norte. Somente assim, a narrativa utiliza-se de uma
simples colocação: a esperança que retorna é a mesma que diferencia a tomada de
decisão. Os indícios eram tremendamente sérios, tudo estava de acordo? Ou
seriam esses sinais desejos e retornos de memória do seu Manoel? A comunicação
que se fez em pontos de um lugar e de uma dança da memória, se verte para o
porvir novamente. O narrador se coloca como escrita de castigo ou verdade para
o personagem. Como forma artesanal de comunicação, a narração se manteve sempre
presente nos momentos de constatação e de perpetuar as memórias de um povo.
Walter Benjamin, ressalta:
A narrativa, que durante tanto tempo floresceu num meio
artesão – no campo, no mar e na cidade – é ela própria, num certo sentido, uma
forma artesanal de comunicação. (id, página 221).
No sentido da
narrativa regional, os olhares sobre o momento se tornam mais e mais coerentes
quando se fazem traços de uma cultura. As relações consensuais entre o olhar
modificador do narrador e as linhas de memória presentes nas estórias trazem as
formas de casualidade contidas nos modos de conhecimento do homem comum, em
contraste com as formas de perceber da
ciência. As formas narrativas se dão com a fluidez necessária a manutenção de
um contar singelo e que refaça o sentido do que foi outrora a construção de uma
cultura. Nisso, a manutenção das formas
cria o retorno, o porvir que se faz com clareza. A nossa vem amanhã. Seu Manoel dá forma ao estado de vigilância que
nunca muda e que retoma o elo que tem com seu povo e sua cultura. Ela não veio
no dia seguinte, nem nos demais, contudo ele permanece inalterado com relação
ao fato de que manterá seu momento de esperança.
Há de se entender que
essa cisma da chuva que não vem permanece e teima em relevar os temores de seu
Manoel. Contudo isso não desfaz sobremaneira a crença de que em breve se dará o
dobrar do tempo em forma de sinais e acontecimentos concretos. O tempo não ata
nem desata, tem cisma com seu Manoel que não entende os porquês de tudo isso. A
relação do homem com sua forma de vida, as aventuras e desventuras e todo o
poder do ícone senhor da fazenda do Riachão faz com que se pense que há algo
que traduz essa teima do tempo em relação àquele lugar. Percorre, então, a
crendice de que nem tão cedo a chuva chegará, uma vez que esse homem
representativo de tudo o que se dá naquele lugar também guarda um
direcionamento místico com a natureza e tudo que ela traz ou não traz. E alguém
das redondezas canta o mistério de seu Manoel do Riachão, questionando-lhe os
pecados e verbalizando sua desgraça. A manutenção de seu estado de espera que
vai se espraiando por todo o canto do Riachão. Que pecados são os teus? Cantam os versos desse outro que tenta
explicar o fato, o sempre presente fato de que o Riachão não passa de um
espelho d’água no terreiro.
Na escrita de Seu
Manoel do Riachão, o autor impõe a cisma de que a relevância da memória traduz
os desejos e cantares de um povo em tempo de seca, buscando livramentos dos
tormentos que os cercam. No alpendre, um homem representa a resistência e a
persistência em acreditar que algo bom irá acontecer, no dia de São José, mesmo
que o sertão esteja como sempre seco. Segundo Tatiana Salem, citando Deleuze o que é atual é sempre presente. A
atualização dos saberes e ritos do sertão, o próprio Seu Manoel representa. Ele
caminha como a cantiga e sofre enquanto espera, mas sempre espera. Vê os sinais
que se aproximam e tem certeza de que amanhã ou depois tudo dará certo. Contudo
o tempo tortuoso dribla-lhe o espaço e o momento. Esse mesmo tempo que se
adivinha e se apresenta certo, se faz demais tortuoso em sua leve mania de
trazer esperança.
REFERÊNCIAS:
BENJAMIN, Walter. O narrador – considerações sobre a obra de
Nikolai Leskov, in: Magia e técnica,
arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. 8ª edição
revista, Editora Brasiliense, São Paulo, 2012.
CHIAPPINI, Ligia. Do beco ao belo: dez teses sobre o
regionalismo na literatura. Estudos históricos, Rio de Janeiro, vol. 8,
1995, p. 153-159.
LEVY, Tatiana Salem. A experiência do fora: Blanchot, Foucault e
Deleuze. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2011.
ONOFRE, Manoel Jr. Chão dos simples(3ª edição revista e
ampliada). Mossoró, RN, Sarau das Letras, 2014.
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