terça-feira, 28 de abril de 2015

A quebra do ser social e o sertão labiríntico em "Duelo"


Aguinaldo Do Nascimento


RESUMO
Este texto tem por objetivo analisar as relações sociais e os elementos mitopoéticos na novela “Duelo”. Desta forma, evidencia-se a quebra do ser-social, a busca da reestruturação da família como instituição no sertão brasileiro, o ethos e o pathos do homem em um espaço labiríntico, a ânsia do devir e a animalização do ser. O espaço como travessia, busca de outras ordens, da vinculação do homem com as instituições sociais e a organização conceitual deste para com os elementos que o universalizam.
Palavras-chave: ser-social, família, labirinto.

1. Introdução

A narrativa “Duelo” traz a consistência do aspecto cultural e da formação da instituição família como base das relações para o homem sertanejo. A palavra “duelo” significa o confronto direto entre dois indivíduos, com regras bem definidas e testemunhas para que tudo ocorra de acordo com o que tenha sido estabelecido. Na narrativa de Guimarães Rosa, esse embate ocorre em não-lugares e as estratégias se formam ao longo de um jogo.

A estória inicia-se de forma pacata, com pessoas pacatas, mostrando a linearidade das instituições sociais: casamento, religião, profissão. Em um dia não muito bom (um dia de nhaca, Sagarana, página 158,1984) Turíbio Todo se depara com uma cena de adultério envolvendo sua esposa( Silivana) e o Cassiano (ex-anspeçada do 1º pelotão). Há, então, a quebra da linearidade institucional e a procura do resgate da condição primeira: o homem em seu lar, o casamento como “lugar” social que dignifica e é sacralizado pela própria ideia de sociedade. Turíbio, enquanto ser-social, toma a atitude aparentemente drástica e imprópria, porém aceita como código de honra, mesmo disfarçado, pela própria comunidade: decide “lavar a honra”. Nisso, há a busca da reestruturação da ordem social, a busca da linearidade outrora desfeita.



Não havendo ocorrido o plano como deveria, Turíbio precisa fugir, pois atingira o irmão de Cassiano que inicia uma perseguição, acionando o jogo entre os dois. Esse jogo começa a estabelecer-se em não-lugares que constituem o espaço virtual do ser em busca de si e do outro. O ser-social passa a dar lugar ao ser-animal, animalizando-se em linguagem e atitude, eles percorrem espaços outros que constituirão a virtualização da busca da honra e da socialização: a reestruturação de uma ordem. A concatenação dos fatos, todos os termos da atitude são projetados na imagem do homem que se promove no embate: o conflito do ser em contato com a organização de sua ideia de grupo e como se permanecer numa posição particular nesse grupo.

Entre esses dois elementos (Turíbio e Cassiano) está a mulher, Silivana (de olhos grandes de cabra tonta, página 160).Ela é o olho condutor das ações, informa, localiza, organiza e desorganiza, pouco citada, não é a potência do discurso, contudo ausência que profere, vocifera mesmo sem estar. Na estrutura social é colocada como o neutro, não é objeto de disputa, apenas o que faz parte do sistema organizador da instituição família que fora desrespeitado. Ela age como o pensamento do Gimnoto em contrapartida à ferocidade da piranha(Cassiano) ou da astúcia da arraia(Turíbio); o pensamento articulador que objetiva e age em prol de si mesmo.

O ethos que precisa ser recuperado se esvai com o tempo, o cansaço e a saúde abalada de Cassiano o fazem parar um pouco. No encontro com o barqueiro, Turíbio entende que é tempo de organizar suas idéias, como pássaros que têm rumo incerto, agem de acordo com a necessidade, ele precisa se organizar, ordenar seu pathos, e assim o faz. Cassiano, ainda com a vingança em mente, cai doente em um vilarejo e ali conhece “Tim-pim vinte-e-um que será instrumento finalizador deste duelo, por apreço e dívida.

A viagem a São Paulo sair de sua terra, de suas raízes, conhecer outras culturas e saberes, refaz Turíbio. Este passa a constituir outros sentimentos com relação à ordem social, refletindo o seu pathos e medindo de forma diferente o seu ethos. Ao saber da morte de Cassiano, retorna, pensando poder reestruturar a ordem social. No entanto, eis que se depara com um tipo aquém de suas expectativas: o Tim-pim vinte-e-um. Estes configuram os opostos: ser-social/ser-animalizado; forte/fraco; rico/pobre. Assim, finaliza-se o duelo, observa-se a idéia de estética no traçado da oposição que permanecerá assim: um confronto que se perdeu no tempo-espaço, mas não no meticuloso ethos, composição do ser-social.

2. Aos olhos do oráculo

A palavra esvai-se entre o dito e o mostrado. Nisso, há vários pontos que se embaraçam pela estória que fora contada e aquela que não fora. Os espaços ideológicos se mostram condicionados pelo espaço do orador que conta, narra, vocifera as ações e delineia os aspectos morais e amorais do duelo entre Turíbio e

Cassiano. Há uma mudez necessária na origem dos atos: Turíbio não fala, observa o que acontecera e nisso apenas se oculta uma voz que urge em gritar para que todos saibam o que ele está passando, como as coisas estão se dando. Turíbio nega a voz e espera, mas a sua voz está lá, no não dito, naquilo que fora escondido, observado por entre as réstias de luz, pouca e certa, não insuficiente para que sua vergonha tenha sido escondida . O que não está assim mesmo teima em mostrar-se, a relação da palavra muda com o ato que se conforma em configurar a linha ideológica, o traço estético inconsciente que se faz mais evidente no momento em que se esvai por entre as palavras.

Turíbio efetua a ação e se esconde como as palavras. Ele dá o passo inicial para o sertão labiríntico que mitopoéticamente configura seu espaço em si, seu não-lugar, momento virtualizado, lugar da caça: atitude animal que arranha seu instinto de presa, localizada, astuta, desloca-se e virtualiza-se em meio às veredas.

Ele não espera os acontecimentos, adianta-se como a olhar para um oráculo que lhe adverte e adivinha o que se mostra em seu futuro. Não que esse encontro seja inevitável, ou possa ainda se tornar assim, o duelo é cronometrado, discutido pelos que formam esse grupo social, criam-se logísticas para que ele se dê na naturalidade que deva ser. Turíbio, inquieto pelo próprio nome, paradoxalmente aquieta-se nos arredores de uma cidade, como alguém diferente que prefere estar ali, distante, quer viver modestamente e se consola com sua condição. Não parece entender que se torna agente primeiro de uma ação que dará início a um jogo que se mostrará ponto por ponto geográfico em seus roteiros e mitológico em seu consenso. A teimosia de quem se esconde e converte-se em ermitão, ogro do acaso ou vítima do discurso mítico. O que se entende por discurso, percebe-se na palavra
que se envereda por entre as informações e cria o espectro das possibilidades da estória. Turíbio volta-se contra o que deveria estar a seu favor: o desvio de conduta, as relações sociais.

Cassiano em tudo se mostra. Ser social bem postado e definido está sempre em primeiro plano na construção do status quo que se estabelece entre ele e Turíbio: o papel operador, a certeza de que não estava de certa forma cometendo nenhum ato impróprio. As vozes não articulam os pares nem se dispõem a fazer uma significação dos valores que estão em questão. Elas (as vozes) se dispersam de maneira veemente e provocam o acaso, as circunstâncias que se formam independentes do que se deve prever. Não há o que dizer apenas o que fazer: atitudes que formam o instinto, o animal. Cassiano está no seu papel de quem precisa vingar a morte do irmão, sua vida está devotada a isso: como uma forma sacra de manter o nome da família. Esta é a instituição formalizada pela religiosidade como um ente mitologizado nas sagradas escrituras.
O mito é construído pela forma dada à ideia de organização social, arraigado nas estruturas, ele faz parte do pensamento do homem em qualquer instância ou qualquer modo de idealizar o ser.

Não havendo alternativa, o homem dá lugar ao animal que precisa caçar. O instinto, no que se refere ao processo de animalização, cresce na medida em que avança no espaço neutro e certo da busca. Há, neste sentido, um homem também sem voz, poucas palavras, estratégias que visam o jogo, o novo. Ele percorre as veredas e pensa estar sempre à frente do eu que, na verdade é o outro. O labirinto se faz e refaz todo o pensamento da fera que quer ser racional e do homem que quer ser irracional. Eles se espelham, veem-se e conhecem os seus próprios movimentos. Na política do que se pode dizer a respeito um do outro a comunidade opina, prefere, torce e reverte-se a favor de um ou outro. O consenso do ser-social que se quebrou está agora para o ser animal que se constrói. A ideia do homem na condição de idealização do seu espaço e do que quer provocar nesse espaço: os valores, sentimentos coletivizados e relativizados de acordo com o momento.

Cassiano está à procura de Turíbio e precisa de uma vez liquidar com esse caso para que possa assim descansar e desta forma desfazer seu impropério, seu ato impensado ou mesmo perdoar-se, ganhar de si a condição daquele que fez o que deveria ter feito. Nisso os dois são bem parecidos e apresentam as mesmas faltas e falhas: estas que fazem do ser-social uma construção projetada nas ideias dos homens.

De forma neutra e natural está o oráculo. Protegido dentro de uma caverna, ele não é incomodado, apenas incomoda por existir e persuadir, decidir a vida das pessoas. Este oráculo é a mulher Silivana, postada em lugar certo: o sítio, início de tudo, caverna que tudo gerou, berço do princípio e possivelmente de um fim. Esta não está em momentos diversos da estória, localizada apenas como possíveis insinuações de como se comporta de forma neutra, ela não tem voz, mas é oráculo, uma vez que decide de várias maneiras o porque e como as coisas se dão. A estória se transporta de cena em cena, de vão em vão, de momento em momento. As palavras são imagens que se formulam em contento com o que precisa ser revelado: o homem em meio ao labirinto da palavra. Nesse ponto, o oráculo se põe em decisão das coisas, ela move o roteiro da vida dos duelantes de modo a prostá-los diante de suas vontades.

Silivana é mulher em uma sociedade que se situa nas convenções. Ela pende a palavra na história e nos modos das estórias que contam o ser social. Ela promove o não pensamento de modo a portá-lo em síntese e não em evidência. Turíbio Todo amolece quando na mulher encontra os motivos para poder conduzir suas ações, ele pode ser de fato movido por essa ideia da luta, a ideia do modo social, da situação original que trata do ser em locus, de acordo com os hábitos construídos pela sociedade e formalizada pelas estruturas regionais. A palavra em Silivana é oculta e pronta para ferir, arma que se esconde na suposta inocência que ela demonstra, provocadora do pensamento mudo, palavra muda em trânsito, movimento que pode ser geográfico. Ela se move com a estória. O oráculo para o qual haverá um retorno em tese.

3. O espaço da palavra: um não-lugar

Os momentos do conto “Duelo” são formados por desencontros. Essa ideia não indica que mormente houve algo de distante entre os duelantes, mas algo provocador para ambos. Num jogo de estratégias, num equilibrado duelo de sentidos, o verdadeiro jogo se faz em suas vidas destroçadas por ações instintivas. O labirinto que se forma está em síntese em suas próprias vidas, na condução do ser social em busca do seu lugar primeiro. Mas esse lugar nunca chega, nunca avizinha-se, não foi promovido por outros, ou por eles, esse lugar está na palavra que constrói o espaço do casual, do acidente, do estratégico. A palavra seria esse não lugar que provoca e promove as idas e vindas, os desencontros que se passam ao longo da estória. Todos são elementos desses espaços, eles se procuram e se distanciam em prol da busca que se torna mais importante que o encontro.

Turíbio Todo não desconhece o risco, nem substima o outro. Ele acompanha as ações na tentativa de cansá-lo, sabe de sua saúde. Cassiano promove o embate com o destino. Para ele não vale dizer que foi o acaso que o colocara naquela situação. Ele sabe que pode encontrar seu adversário a qualquer tempo, mas espera pelo momento do outro para operar o seu próprio momento. Cassiano está a mercê do lugar. Turíbio Todo está a mercê de Cassiano. Entre eles, as vozes dos outros leem suas decisões e passam a participar do que será o enlace ou não da estória. Esses outros lugares vivificam o ser social e situalizam sua participação no corpus regional, geopolítico que se forma por todos que querem o fim da estória, querem contar também esse fim.
A palavra ocupa um lugar do outro, um lugar espelhado na fala de vários que indicam, testificam, analisam, dão dicas e promovem as partidas e chegadas. Mesmo distante, há o papel do outro na mulher que recebe e distribui ações para os dois duelantes. A ideia se constrói no ato e no espanto do que não se instituiu, apenas foi idealizado. Nesse ínterim, há o pouco do constatado no ambiente que pode ser sim possibilitado por todos que estão indiretamente na palavra da fábula social de Turíbio e Cassiano. Não é uma estória de dois ou três, mas uma palavra de muitos. Essa pluralidade se configura como ponto de identidade do ser social, esse ser que se impõe nos lugares, metaforizado nos espaços regionais e verdadeiros, mentem essa verdade para instaurarem o outro espaço, o não lugar.

O não lugar traduz o momento de perspectiva de ambos com relação ao que se vai construir e como permanecerá o lugar do outro na estória. Há, sim, o duelo no ir e vir, no jogo labiríntico que acontece ao longo do texto. Há também o momento de dissolução dos saberes de cada um, do plano que se formou ou foi se formando durante esse embate. Esse labirinto está não só no geográfico, mas até mesmo na construção da palavra, é o labirinto das ideias de um a outro, com rizomas do que se diz no que se faz. As tormentas que cada um vai enfrentar se desenrolam no arcabouço das palavras que se dão a cada momento.

O indício de que elas vão guiá-los não está em evidência, mas pode ser tido como um elemento formador das ações inerentes ao todo social e não apenas ao que concerne Turíbio e Cassiano.
Há que se valer das coisas como extensão do homem. Nisso, os lugares em questão representam o labirinto que se faz dentro de cada um. Ele é a metáfora do conceito de sertão, extraindo dele a concepção do mundo fragmentado por todos em questões individuais que se tornam momentaneamente coletivas ou coletivas que se tornam individuais. Há labirinto no homem, de entradas e saídas, encontros e desencontros que formam o indivíduo e mostram o coletivo.

4. O fim do jogo: labirinto e fuga na morte

Turíbio Todo encontra-se em mundos, transitando de lá para cá. Ele percebe que o melhor é esperar pelo tempo da saída. Preso em um jogo, ele espera o exato momento em que dirá “estou aqui”. Assim, voltará ao status que sempre teve, manterá com o social a ideia de que tudo passou e foi da maneira como tinha que ser: um homem guardando sua honra. No mais, não fora ele a causa da morte do outro. Como um xeque-mate, ele volta para sua terra e planeja sua vida ao lado da mulher Silivana. Ele já promove melhoras e valores diferentes, não é mais o mesmo Turíbio. Tudo está de acordo com o que esperava e podia ser melhor. Haverá de ter mais prestígio, homem renovado, vencedor do duelo que se conheceu como o mais longo de todos daquela região.

O homem estava indiferente ao que poderia acontecer. Seu labirinto findara e assim não mais podia esperar para retomar seu lugar na sociedade, ter o seu ser social restaurado. O labirinto nesse caso aponta uma saída: o fim, a ruptura da perseguição de Cassiano, o mesmo não está mais entre eles, findou-se e não pode mais reclamar o direito a tirar sua vida. O espaço labiríntico se faz com a estrutura do jogo e pode ser entendido em partes pelos que estão jogando. Esse espaço só pode ser operacionalizado por quem, de súbito, estaria manipulando as peças e nunca pelos jogadores. Eis a saída deste lugar, o desfecho para o caso que já consumia Turíbio em muitas vezes pensar em desistir de sua mulher e ficar onde estava mais seguro, longe dos olhos de todos.

  • Referências Bibliográficas:
AUGÉ, Marc. Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Trad. Maria Lúcia Pereira. Campinas, SP: Papirus, 1994.
FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Trad. Salma Tannus Muchail. São Paulo SP: Martins Fontes, 2000.
RANCIÉRE, Jacques. O inconsciente estético. Trad. Mônica Correia Netto. São Paulo, SP: Editora 34, 2009.
ROSA, Guimarães. Sagarana. Coleção Mestres da Literatura Contemporânea. São Paulo: Editora Record, 1984.

Marcadores:

0 Comentários:

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial