terça-feira, 28 de abril de 2015

Vozes mitopoéticas e o animal escrita em "meu tio Iauretê“


RESUMO: Este texto tem por objetivo discutir as relações mitopoéticas no conto “Meu tio Iauaretê”, observando a fabulação do mito na hispanoamérica, as relações da linguagem e o animal escrita. Dentro deste ínterim, pensar o mito do iauaretê como uma releitura da dominação ideológica na colonização das américas e da relação do devir-animal com o ser-social, sendo o fogo o elemento entre o homem e o ser deificado( a onça). Estas postulações serão feitas a partir da teoria deleuziana da territorialização da linguagem enquanto animal escrita.

1. A estória e o mito


O conto “Meu tio Iauaretê”, de Guimarães Rosa, traz a estória de um mestiço contratado para “desonçar” certa região supostamente do interior do centro-norte do Brasil. Lá, esse homem se depara com algo familiar: o selvagem, e isso lhe faz aos poucos criar uma outra identidade.
A ideia presente no texto não se resume a um mero caso de fabulação do fantástico, licantropia ou coisa desse tipo: tem-se, sim, uma profunda análise das relações sociais e do homem agonizando consigo mesmo, uma identificação no outro e uma série de inserções a respeito da mitologia hiospanoamericana e como esses mitos constroem nossa identidade ou participam dela de alguma maneira.
 Tudo começa com um diálogo entre esse mestiço e um forasteiro que nunca se pronuncia, mas é citado todo o tempo como se estivesse sendo envolvido pela palavra: elemento que serve como condutor de todos os rastros e armadilhas, de uma territorialização feita a partir da ideia de fera que busca sua presa. O mestiço, dono da fala: oralidade em busca da identificação de tudo, traços do hoje e do ontem reclama sua sina, afasta-se do discurso que teme para o que é temido e fala, narra seus devaneios do que pode ser feito por ele e para ele. Esse homem é representante de uma história/estória, aquela que invade todas as vertentes da fala e da condução totêmica que envolve esses elementos.


A onça é um animal bastante deificado na hispano américa e pode ser entendido como forte traço cultural das etnias que ocupavam essa região. Ela aparece em várias estórias e têm papel condutor no processo de evolução do ser, na passagem do cru para o cozido, do domínio do fogo, e da sobrevivência dos homens. Em se tratando do mito da criação e da destruição do mundo, a onça é entendida como ser divino e que em certo tempo do processo de evolução do universo se manteve a favor do homem conduzindo-o para que pudesse, então, estar no patamar que está hoje. As lendas em torno desse animal sempre trazem em si a conotação do espaço e do encontro do ser humano com o outro (onça), elemento que, sendo divino, é tido como parte de um cosmo que ultrapassa a tudo e a todos. Dentro do conceito de que se pode estar transferindo as batalhas tribais com esse animal a fim da ocupação do espaço e de que esse respeito é devido a essa busca incessante, tem-se a percepção de que dentro do universo hispano americano a territorialização foi conquistada a partir de uma sobreposição espacial e da criação de uma ideologia a respeito do ser conquistado.
Astecas entre outros povos cultuavam o jaguar com rituais que o divinizavam e o colocavam como símbolo da guerra e da condução dos valores de conquistas. O jaguar marca essa identificação com o outro e com os mesmos elementos que formam o espaço e um momento desses povos. Entretanto, as condições passaram e a poiesis do mito ficou, os valores foram sendo transmitidos e releituras foram feitas a partir dessas estórias. Não como um traço definitivo do homem, nem como algo que servirá de comparativo, mas sim arquétipos capazes de formular análises com relação ao pensamento ancestral e o que dessas ideias estão ainda presentes em nossa sociedade. Walnice Nogueira, em seu texto “O impossível retorno”, traz informações a respeito do que dessas estórias foram trazidas para o imaginário indígena brasileiro, em regiões bem próximas de outros países da América do Sul. Pensa-se, então, que os valores do imaginário ancestral que outrora fora concebido por Maias e Astecas participam do nosso modo de entender as relações do homem com a natureza e com os demais, elas constroem também as ideias sobre os conceitos de cultura e de feitura das manifestações entre homem, natureza e divindade.
Na busca de uma identificação, o repouso sobre as tradições que sobressaltam os valores modernos e as conjunturas forma a linha de relacionamento do ancestral para com o atual. De acordo com Walnice, muitas estórias são contadas no Centro-Norte do Brasil e delas pode-se entender a relação entre o homem e o animal: um devir condicionado pelos rastros ancestrais. Nessas estórias, a onça pontua como elo entre o natural/divino e o homem que, primeiramente, faz o papel de ser não evoluído, em busca da sobrevivência e ainda a mercê dos fatores fenomenológicos que lhes ditam as regras. A onça aparece como intermediador do modo ainda primitivo para outro mais avançado, ela leva o homem ao encontro com o fogo, passando esse do cru para o cozido. A ideia metafórica que permeia a estória vem de encontro ao enlace mitológico do homem em busca da conquista do fogo, tal qual Prometeu, o índio ancestral rouba esse elemento da onça e o traz para os homens, assim começa a rivalidade e a animalidade de um para com o outro. A onça, angustiada por não ter mais o fogo e pela traição, resolve apartar-se dos humanos, negar-lhes identidade, passa a andar com as quatro patas e ferozmente deixa de comer carne cozida, comendo-a apenas crua. Isso sela o destino dos dois grupos.
Em Meu tio Iauaretê, os destinos se invertem no sentido de que o mestiço, personagem que conduz a narrativa, envolve-se com a tarefa de desonçar uma certa região, serviço que faz com maestria e que por isso teria sido contratado. Lá, aos poucos ele se descobre parte de todo aquele lugar, vai de encontro ao conhecimento natural do índio, habitante daquela região, passa a perceber o desvario dos homens, a pouca humanidade que ainda lhe resta põe-no em conflito consigo mesmo e com as pessoas com quem ainda se relaciona. Ele permanece vivo nos demais, contudo sabe as culpas e as fraquezas de cada um: a pouca vergonha de um, a glutonaria de outro, a preguiça, a loucura, enfim, fraquezas que ele não identifica nas onças e que ao poucos o fazem perceber o quanto elas são mais parecidas com ele. As onças são demais importantes para o seu habitat, tanto que ele comanda as ações e contribui para que, naquele lugar, apenas os traços coerentes de sua etnia sejam preservados. Ao longo do seu trabalho enquanto caçador de onças, o mestiço se depara com o encanto do ontem, dos antepassados que serviram para que nele se estabelecessem as formas e crenças dos sobreviventes tribais, dos rituais, do divino.
De um lado os homens que lhe apartam do humano: o preto bijibo que tanto come, tanto que lhe faz ter verdadeiro torpor. Esse se faz atroz, mas o mestiço não tem raiva dele... pelo menos não por todo o tempo; o homem que não tem apreço pela sua mestiçagem, sua família acaba pagando por esse desatino étnico; o preto Tiodoro, um poço de preguiça e desapego da moral, a mulher Quirinéia que apenas lhe tratou como mais um homem, mas essa o fez lembrar a mãe, por isso foi poupada. Do outro lado as onças, seus parentes, seu tio iauaretê: as iauaras que se fazem presentes e têm a naturalidade e divindade de outrora, elas são beleza, destreza, força, paradoxalmente gentis, sorrateiras e envolventes, de uma serenidade humana, servem-se dos humanos como resgate do que é delas por herança, a terra, os rios, a mata, o universo que lhes está sendo ameaçado. A onça é a parte unificadora da estória por ela ter a paternidade, o elo ancestral, totêmico entre a etnia e o deus-onça. Nisto, tem-se as vozes mitopoéticas, ecos do que se pode perceber nas aparições desse tipo de condução, da vertente do homem que se propõe a ser perpetuador da espécie, alargar os horizontes da humanidade, porém encontra seu elo ancestral nas onças e procura voltar ao seu ponto de construção junto ao universo, talvez para tentar entender o que se passou por todo o ser percurso. Ele conduz as ações, mas não entende que, de certa maneira, isso pode não ser o ideal.
A estória se faz como um depoimento. Ação feita a um interlocutor que não é citado senão pelo personagem principal. Há alguns momentos de dúvidas sugeridas pelo mestiço no que diz respeito ao diálogo, aos anseios, aos propósitos de cada um: uma desconfiança natural e aos poucos feita com outros fins. O interlocutor estranho, viajante primeiramente, suposto investigador, talvez por causa das mortes que ali aconteceram, é todo o tempo estimulado a participar de forma mais efetiva das ações, a cachaça, o fogo, a arma que carrega, tudo isso faz com o que o mestiço lhe indague, faça contato, estabeleça uma linha de investigação também por parte da onça, representada por ele. Novas conduções, revelações, mostram o que a onça pode fazer, de como ela faz, como ela é. Assim, as ações são postas em fatos narrados aos pedaços, estraçalhados pela onça, jaguar, iauaraetê: a onça verdadeira. Os traços de uma bailado lingüístico que vai se formando ao longo do homem que se transfigura, muda, homem-onça, onça-homem, ele é onça e age assim, vai se vertendo assim, andando nas quatro patas, usando o som das onças, atacando como uma onça.








2. O ser social e o devir animal




A sociedade trabalha com a condição do homem frente às dificuldades e conflitos sociais. A célula social muitas vezes se faz através de imagens e virtualizações: como devemos ser, nos comportar, que profissão devemos seguir, como podemos nos vestir e agir em determinados lugares. Esse modus vivendis fora traçado com o desenvolvimento das sociedades e como elas se comportam em determinados momentos da história. Essa constrói, de certa forma, a operacionalização do homem frente ao fato de ser civilizado e de ter um padrão nas ações que muitas vezes são contraditórias para com seus instintos. Ele está voltado para a construção de uma ideia social que lhe é conduzida por um aspecto do grupo, o de fomentar maneiras de transformar, pensar na suposta tese do melhor para o coletivo.
A evolução do ser social se faz sob aspectos pensados a partir do conceito de sociedade desenvolvido ao longo do século XIX e de como os fatores que estão ligados às relações pessoais e interpessoais, profissionais, étnicas se consolidam e formam o cidadão dentro de seus limites de relacionamentos e do comportamento dos padrões sociológicos, acadêmicos e cientificistas que corroboram para que o ser social esteja seguro do seu papel e de como a sociedade sobrevive ante as dificuldades. Esse modo científico de pensar os elementos que compõem o nicho social perfaz todo um trajeto condutor dos papéis que são direcionados dentro do espaço histórico e como eles são transformados ao longo dos anos. Este ser social se modifica e espera essas mudanças como forma de evolução, pensando assim que está atingido patamares superiores nesta linha de condução e não entendendo isso como forma apenas multifacetada de pensar o comportamento humano.
No conto trabalhado, o ser social está sendo primitivamente reelaborado. Ele passa pelo caminho das descobertas de si mesmo, atravessa o espaço da etnia e percorre a trajetória da suposta evolução, modernização natural de tudo e de todos. Tendo um pai totalmente ausente nas suas relações de desenvolvimento, o personagem segue entre lembranças de sua mãe, dos ensinamentos relativos à sua cultura e da relação escravista imposta pela diferença social. As novas relações não se dão e tampouco a evolução do aspecto social. Isso faz com que tudo o que se refere ao traço evolutivo seja desfeito e esquecido. Naturalmente se faz aqui uma menção ao mestiço como força de trabalho em várias regiões do país e pensa-se esse ser social como um ser em entre lugares, ora voltando às suas origens étnicas, ora tentando se acomodar nas dimensões sociais vigentes. Nesse percurso, ele incorre em dissociações em todos os sentidos, tanto no que diz respeito à sua etnia já mestiça, como também na formação inacabada das exigências socializadoras. A permanência em uma camada da sociedade que trabalha em prol da modernização faz com que haja uma gradativa dissociação dos elementos que compõem os traços normais do status quo. A forma com que se dão as mudanças e se percebe qual o verdadeiro papel do homem nesse campo de transformação interferem na transfiguração do homem ao animal.
Sobre essa relação entre os vários territórios que conduzem o ser social e o devir animal, Deleuze e Gatarri  discutem os traços que compõem o ser e o outro, esse devir se dá por vários fatores. A relação direta entre animal e homem nas condições que são colocadas se refere a pensar de forma proporcional, atuando essa proporcionalidade de modo a conferir nela os valores de um e de outro. Assim, que o animal totêmico é referência espiritual e cultural para um determinado grupo, este só pode ser relacionado com outro totem para que dessa forma se possa conduzir os ganhos e perdas. Nas relações entre o homem e o animal pensam-se os conflitos e correlações que podem ser alçadas na emissão ideológica de um a outro.
A proporcionalidade perfaz o modo como se opera esse devir no pensamento evolucionista, de um evolucionismo além do ancestral, genealógico, mas de algo que opera os pontos de encontro entre os pares: o homem está para a onça assim como ela está para um deus. Nesse modo estrutural, há a naturalidade dos acontecimentos, dos grupos que formam os totens e transfiguram passos que são imitados, por este ou aquele grupo. A ideia do devir animal, da relação que temos com os outros seres que fazem parte de nossa formação, totêmica ou não, está em coerência com a postura psicanalista levantada por Jung no que diz respeito a pensar os arquétipos, imagens formadoras de nossa condição psíquica e social e que nos remetem a construção dos valores advindos de um passado mitológico. Essas imagens são construídas a partir do que se manteve aceso nos anseios e na percepção do homem com relação ao seu contato com o outro: os que perfazem os momentos de ruptura entre o ser e o sonho, o real e a imagem o simbólico e diabólico; nessa separação do que é verdadeiramente ser e espaço, tempo real e onírico. O homem territorializa sentidos e momentos, identifica-se com outros, arredores, símbolos, une-se ao que lhe opera sobrevivência, não essa sobrevivência rotineira, estipulada pela sociedade, no entanto, uma sobrevivência identificada na noção do outro, na associação dos desejos e dos valores já pautados.
O devir animal não se põe como regra comparativa direta, quando de uma relação anímica seres se transformam em outros seres. Em se tratando do homem em seu conceito de ser social, há de fato algo em torno do comportamento e da descoberta do outro. Estabelece-se uma relação de cumplicidade e nessa um momento de territorialização e desterritorialização, o devir está além da relação do mito e do mimético, ele se faz com noções que ora buscam os momentos de recuperação do traçado real, ora identificam-se mormente com os valores agregados por outras formações ou contribuições já arraigadas no grupo social. Devires animais não são notações de equivalência, contudo de uma ambivalência nocional e funcional, não somente psíquica, senão relativa aos procedimento que operam a funcionalidade do homem frente a seus medos e sonhos: os operadores psicológicos que conduzem de pronto as sensações do outro e os coloca frente a situações que propiciam uma identificação simbólica e dizível com o diabólico: algo que junta e ao mesmo tempo separa por tratar-se de forças antagônicas.
Tonico, o mestiço aqui evidenciado, não se dá nome de branco, mas prefere estabelecer uma relação dentro do campo linguístico com o tupi Jê, língua bugre, Macucozo, identificando-se também com o negro, aqueles que foram vítimas de seus momentos de onça. Ele está para a onça pelo oposto, ambiguidade da relação entre o bugre e o homem. Ele, ser mestiço, sente-se híbrido, de um hibridismo relacional, recorrente da forma como a sociedade o conduz e o faz pensar: ser operador apenas para servir, animalizado anteriormente. De acordo com Deleuze e Gattari, há animais individuados, familiais, sentimentais, propícios a estigmas de urbanização, fora do seu enquadramento de animal em si. A partir desse ponto de vista, podemos dizer que o homem seria esse animal familial também, fora de suas características da caça e do todo  caçador que lhe anula a condição primeira: ele é o animal em competência com os que com ele se associam. Tonico é esse animal em estado de latência, manipulado pela sociedade que lhe opera os sentidos bugres, ele é conduzido ao seu habitat primeiro, conhecido e desconhecido simbólico, longínquo, estabelecido na lembrança dos ensinamentos de sua mãe, carência do animal familial, sentimental.
O bugre é agora “desonçador”, ele opera a condição de humanizar uma região, mas antes observador, herança daqueles que foram outrora seu povo, percebe seu devir onça, chegando tranquilo, como “maria-maria”, sorrateira e certa  que deseja, ele a deseja, estabelece um contato a priori, sentimentalizado e sexuado, onça é seu tio iauaretê, onça verdadeira que se aloja na mata e sabe caçar homem, sentir cheiro, apreciar o cru em detrimento do cozido. Na tapera, alguém o escuta por demais acaso de viajante que se perde, que enfrenta desafios, seus segredos de onça são narrados em linguagem de homem e sons de onça, uma transfiguração pensamento.



3. O animal escrita

A fala está para a escrita como oposição. Dentro da visão socrática, nas relações filosóficas o indivíduo precisa do discurso oral como elemento de construção de suas ideias e da identidade de uma linha de pensamento para que esta se estabeleça de forma conceitual e permanente: essa permanência se dá de modo operacionalizado na oralidade. A escrita vem causar a outra face, cristalizadora dos sentidos, do pensamento que já não é mais pensamento, que pode ser reproduzido e assim, mimetizado sem interação comunicativa. A oralidade, segundo Derrida, é a edificação do pensamento, servindo a ambivalência oralidade/escrita como “pharmakós”, podendo ser remédio e veneno. A palavra se dá nos padrões do discernimento daquilo que se esvai para o que permanece inteiramente como “ideia” elaborada e reencontrada nos discursos.
Pensando, então, a fala como elemento que tem força e impera momentos dentro do discurso, será analisada a palavra enquanto ser latente de vontade, ser que opera ritos e traça caminhos, que instintivamente territorializa-se para que, cercando quem as ouve, possa persuadir, vociferar, avançar como um animal que macula, deixa suas marcas. Essa palavra se arrasta pelo discurso de modo a encontrar seus próprios caminhos e assim dissociar as relações já imperadas nas ideias constituídas. O pensamento enquanto noção individual para o coletivo compõe-se como partes de um jogo que vai operacionalizando as ações e transfigurando o que ficara. Ser nocional de acordo com o traçado do discurso, a palavra vai se deixando transformar, ela é conduzida até o ponto em que se fixa em um território e passa de paciente para agente. A execução deste modus operandi se faz como caracterização do ato de narrar para a noção de sentir: as ações se dão de modo a compor um campo semântico estruturado para um determinado fim, mas que fim seria esse? Como se dá essa virtualização? De certa forma, essas operações rompem com o que se espera de uma estória, saga que se quer conduzir da forma como nossos sentidos desejam, a estória ganha sua condução de acordo com o propósito da palavra que nela opera. A palavra é instinto, vida outra que se espraie por todo seu território, acomoda-se nas linhas e entrelinhas e forma vínculo, sentidos, mostra e esconde o que está se revelando.
Em meu tio Iauaretê, as palavras são elementos operacionalizadores das ações num tom da oralidade primeira, oralidade ancestral que se faz como instinto e atravessa as lentes para buscar um foco no outro. A palavra de Tonico sonda as ideias que estão sendo conduzidas, animaliza-se com o Macuncozo e se faz perceptível a ponto de criar desvios e retomar enlaces que se darão ao longo da estória. Essa essência da oralidade é o ponto de construção entre o modo operador primitivo, indígena, Tupi Jê, e a linguagem brasileira no seu popularismo e informalidade própria de quem não internalizou condutas da língua acadêmica. Criando um território próprio, a palavra se torna força latente, ela pode mostrar-se de acordo com o que se opera, o animal escrita, espaço conquistado pela letra, forma individual e bilateral, invade as ações e toma posse  das ideias que ali estão sendo operadas. Tonico fala, cheio de sílabas soltas e correntes, cria um traçado para a fala própria dos que ali estão estabelecidos, impõe contato com as vertentes linguísticas do passado, descobre-se além bugre, imagem da mãe, índia. As sílabas rosnantes vociferam pela noite querendo transfigurar homem-animal. A palavra impera, ela conta, deita-se, acomoda-se como uma onça, maria-maria, fica ao redor do fogo, bebe da cachaça e observa a conduta do visitante: ela o mira com propósito de caça.
Não há elementos que operem essa vertente da palavra que toma tudo e se torna o elemento que se quer transformar, base que se insinua, síntese do que se quer realmente e se faz de forma materializadora. A palavra é essa base locucional solta que pode ao mesmo tempo criar imagens e sacralizá-las. A imagem formada se instaura na própria base vocabular da mistura do idioma, daquele dizer que se faz oficial e foge do corpo da informação. A palavra transfigura-se e se comporta como elemento mítico que faz operar a poiésis que encanta e faz mover as insinuações, o fogo que metaforiza a transformação do corpo e da mente. Tonico se faz onça pela palavra, ele considera-se onça pelo rosnado que faz, pelo sentido que tem, pela territorialização da onça em sua vida.



4. Conclusão



Em meu tio Iauaretê, há o trabalho da palavra enquanto base para a composição do homem  e da ideia enquanto base para a composição do mito. A palavra se faz operadora dos valores que se transmutam e que se movem para um ritornelo, eterno retorno do homem a sua condição animal. A palavra em si é esse animal que se territorializa e se desterritorializa para que se possa compor os momentos da alegoria do outro. Macuncozo, ele se realiza em ser o outro, aquele do qual seria apenas um momento, será totalmente. O animal que se configura em Tonico, pode-se dizer que se perpetua em si mesmo, na palavra que rosna e ferozmente se estabelece. Essa palavra é mítica uma vez que se transforma em formas e estórias que percorrem a floresta e são alimentadas pelo fogo.

No âmbito da narração, a palavra se torna esse elemento que pode ser virtual e pode alimentar as ideias e as formas da mente, num vai e vem de sentidos e panoramas resultantes. Além do tomo vocabular, há também o jogo dos iguais, do devir do outro que se projeta nos valores e no território no qual tudo se configura.






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